Quais são as sequelas que um bebê prematuro pode ter?

Anualmente, em 17 de novembro, acontece o Dia Mundial da Prematuridade, que foi criado para chamar a atenção para um problema que atinge 15 milhões de crianças todos os anos ao redor do mundo. Para falar sobre o assunto, o Grupo Leforte convidou a Dra. Flavia Gallinucci Garcia, que é médica pediatra e atua no berçário do Hospital e Maternidade Christóvão da Gama, que faz parte do Grupo.

PREMATURIDADE – quando um bebê é considerado prematuro e quais são os graus de prematuridade?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – o bebê é considerado prematuro se o parto ocorrer antes de 37 semanas completas de gestação. A prematuridade pode ser classificada como:

  • Pré-termo – nascimento antes de 37 semanas;
  • Pré-termo tardio – entre 34 semanas e zero dia e 36 semanas a 6 dias;
  • Pré-termo moderado – entre 32 semanas e zero dia a 33 semanas e 6 dias;
  • Muito pré-termo – entre 28 semanas e zero dias a 31 semanas e 6 dias;
  • Pré-termo extremo = menor que 28 semanas e zero dia.

Vale ressaltar que os recém-nascidos chamados de “termo precoce”, ou seja, nascidos com idade gestacional entre 37 semanas e zero dia a 38 semanas, no limite da prematuridade, têm mais riscos de sintomas adversos quando comparados aos nascimentos entre 39 e 41 semanas de gestação.

PREMATURIDADE – o nascimento prematuro é comum?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – no Brasil, cerca de 12% dos partos realizados em um ano são de bebês prematuros. Isso equivale a, aproximadamente, 345 mil crianças prematuras em três milhões de nascimentos. Cerca de 72% delas são pré-termos tardios. Em nível mundial, o País ocupa a nona posição no ranking de partos precoces.

PREMATURIDADE – o que pode provocar o nascimento prematuro, existem fatores que aumentam o risco?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – as causas da prematuridade nem sempre podem ser identificadas. Porém, sabe-se que um acompanhamento pré-natal bem realizado diminui bastante os riscos de um parto prematuro. Dentre os fatores desencadeantes mais comuns estão:

  • Hipertensão;
  • Diabetes;
  • Obesidade;
  • Desnutrição;
  • Infecções maternas (sendo as mais comuns as urinárias);
  • Alterações anatômicas do útero;
  • Gestações precoces (antes dos 19 anos) ou tardias (após os 40 anos);
  • Implantação irregular da placenta e descolamento da mesma;
  • Excesso ou escassez de líquido amniótico;
  • Parto prematuro anterior.

Fatores emocionais, estresse extremo, situações assustadoras a que a mãe possa ser submetida também podem desencadear um parto antes do esperado. Assim como o uso de certos medicamentos, tabagismo, alcoolismo, uso de entorpecentes, quedas e traumas abdominais. Os partos gemelares (bebês gêmeos) também costumam ter uma incidência maior de prematuridade.

PREMATURIDADE – existem formas de evitar ou prevenir o parto prematuro?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – o maior aliado na prevenção da prematuridade é, sem dúvida, um acompanhamento materno adequado, iniciado já nas primeiras semanas de gestação, com controles e exames periódicos e realização de todos os exames necessários. O acompanhamento deve ser realizado, pelo menos, uma vez ao mês, sendo às vezes necessárias mais consultas se o obstetra achar prudente.

Ter uma boa alimentação, acatar as orientações feitas pelo médico, tomar corretamente as vitaminas prescritas, seguir à risca o tratamento das intercorrências e cuidar do físico e do emocional da gestante também é importante para afastar o risco.

PREMATURIDADE – quais complicações a prematuridade pode causar no recém-nascido, como o grau de prematuridade influencia nisso?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – a prematuridade, no Brasil, é à principal causa de morte em crianças nos primeiros cinco anos de vida. A maioria das complicações desenvolvidas pelo recém-nascido prematuro está ligada à imaturidade dos órgãos dele. O risco dessas complicações aumenta conforme o grau de prematuridade, ou seja, quanto menor a idade gestacional, maior o risco para o bebê. Entre as complicações mais comuns estão:

  • Cérebro – respiração irregular, dificuldade em coordenar a deglutição com a respiração, hemorragia cerebral;
  • Aparelho digestivo e fígado – regurgitação frequente, dificuldade na digestão do leite, danos intestinais, icterícia precoce e persistente;
  • Sistema imunológico – baixos níveis de anticorpos, maior risco para meningite e sepse neonatal;
  • Rins – função renal reduzida, com dificuldade na manutenção do equilíbrio de eletrólitos e na eliminação de toxinas;
  • Pulmões – falta de desenvolvimento dos alvéolos e a deficiência de surfactante (gordura que os mantém abertos) dificultam muito a oxigenação e podem causar apneia, uma parada respiratória que pode ser momentânea ou não;
  • Visão – os vasos que irrigam a retina podem não se desenvolver completamente, causando a chamada retinopatia da prematuridade, sendo que miopia e estrabismo também ocorrem com mais frequência nos prematuros;
  • Aparelho cardiovascular – o canal arterial, que normalmente se fecha nas primeiras horas de vida, no prematuro tende a demorar mais, o que dificulta o trabalho cardíaco;
  • Dificuldade no controle dos níveis de glicemia – maior risco de hipoglicemia de difícil controle que, em casos mais severos, provoca convulsões;
  • Dificuldade na regulação da temperatura corporal – pode levar à hipotermia, dificultando ganho de peso, por exemplo.

PREMATURIDADE – como é o período neonatal de um bebê nascido prematuro, que cuidados especiais ele precisará receber?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – devido a todos esses fatores, os cuidados com o prematuro são muitos e exigem monitoramento constante de temperatura, glicemia, frequência cardíaca e respiratória e saturação de oxigênio. Eles são mantidos, necessariamente, em UTI neonatal em incubadora aquecida se a idade gestacional for menor que 36 semanas.

Dependendo da qualidade da respiração, podem receber oxigênio disperso na incubadora, necessitar de pressão positiva (que é aquele “caninho” no nariz) ou até de entubação para ventilação mecânica por aparelho. Geralmente, eles também precisam de sonda para ajudar na alimentação ou para aliviar o sistema digestivo se estiver com funcionamento lento.

O monitoramento da diurese é intenso. Mas, se a função renal estiver muito prejudicada, pode ser indicado tratamento com diálise. Além disso, a vigilância infeciosa deve ser realizada com rigidez. Se uma infecção for detectada, o uso de antibióticos via endovenosa é crucial. O monitoramento com exames laboratoriais e de imagem sempre são necessários e variam dependendo de cada caso.

Uma equipe multidisciplinar, com médicos, enfermeiros, auxiliares, nutrólogos e nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e o serviço de controle infecção hospitalar é indispensável para a boa evolução do bebê.

Além dessas ações, no momento oportuno são realizadas rotinas comuns a todo recém-nascido, como aplicação de vitamina k, colírio de nitrato de prata e aplicação da vacina de hepatite B. Assim como os testes da orelhinha, linguinha, coraçãozinho e olhinho, sempre levando em conta as condições do bebê para realizá-las.

PREMATURIDADE – a partir de que momento a mãe do bebê prematuro poderá amamentá-lo?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – no que diz respeito à alimentação do prematuro, as decisões variam conforme cada caso, por exemplo: um prematuro extremo, com cerca de 28 semanas, não consegue realizar digestão corretamente. Então, é indicada a nutrição parenteral, ou seja, por via endovenosa.

Em casos menos extremos, opta-se pela nutrição enteral mínima, iniciando com 1 ml de leite materno por sonda, progredindo o volume conforme a aceitação do bebê. Dependendo da idade gestacional, peso e evolução do recém-nascido, o objetivo é introduzir o aleitamento materno assim que possível.

PREMATURIDADE – o que pode ser feito para amenizar a angústia dos pais durante o período de permanência do bebê prematuro no hospital?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – o período de permanência do recém-nascido no hospital, em especial na UTI neonatal, pode ser extremamente angustiante para os pais e familiares. Um apoio psicológico é importantíssimo durante as visitas e a atenção plena dos médicos e de toda a equipe envolvida é indispensável.

Tirar todas as dúvidas, trabalhar expectativas e ser verdadeiramente aberto nas explicações ajuda muito os pais a compreenderem, facilitando o trabalho dos profissionais. Envolver a mãe e o pai no cuidado do bebê, quando possível, seja no momento canguru (quando a criança é colocada pele a pele com um deles e os dois são envolvidos em campos de tecido para promover o aquecimento e o contato próximo) seja no momento de alimentação ajudam muito nesse momento tão difícil.

PREMATURIDADE – 9) Quais as vacinas que o bebê prematuro deve receber? O calendário vacinal é diferente para um bebê prematuro em relação a bebês nascidos a termo?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – o calendário vacinal do prematuro pode variar dependendo da idade gestacional e do peso de nascimento.

  • Vacina BCG (contra tuberculose) – só pode ser aplicada em recém-nascidos com peso superior a 2000 g;
  • Vacina contra hepatite B – os prematuros menores de 33 semanas de idade gestacional ou com menos de 2000 g devem receber doses com 0-1-2-6 meses. A primeira dose deve ser feita em ambos os casos, nas primeiras 12 horas de vida;
  • Vacina contra rotavírus – deve ser feita na idade cronológica de 2 meses de vida;
  • Vacina tríplice bacteriana (contra coqueluche, difteria, tétano) – será feita com idade cronológica de 2 meses;
  • Vacina contra Haemophilus influenzae b – deve ser feita com idade cronológica de 2 meses, com reforço com 15 meses.
  • Vacina pneumocócica e vacinas contra poliomielite inativada, meningites C ou ACWY e B, febre amarela, tríplice viral e influenza – mesmo esquema vacinal dos não prematuros;
  • Palivizumabe (anticorpo monoclonal específico contra vírus sincicial respiratório – VSR) – até 5 doses ministradas mensalmente de forma consecutiva. Em prematuros com idade gestacional menor ou igual a 28 semanas, iniciar as aplicações dentro do primeiro ano de vida. Em prematuros com idade gestacional maior de 28 e até 32 semanas, iniciar nos primeiros 6 meses de vida.

Esse calendário é recomendado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), sendo válido para o biênio de 2021 a 2022.

PREMATURIDADE – como a casa deve ser preparada para receber o bebê prematuro?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – a casa de um bebê prematuro deve estar preparada como para qualquer recém-nascido, tomando-se mais cuidado com os prováveis alergênicos mais comuns, como tapetes, cortinas, pelúcias, uso de produtos de limpeza com odores fortes e mofo. O ambiente deve ser arejado, com circulação de ar fresco, mas sem deixar o bebê em áreas de corrente de ar.

Deve-se evitar visitas, principalmente antes das vacinas dos três meses de vida, e sair com o bebê somente se muito necessário. É preciso ter em mente que a imunidade do prematuro é mais baixa do que as do bebê a termo.

PREMATURIDADE – quem foi um bebê prematuro pode ter sequelas na adolescência e na vida adulta?

DRA. FLAVIA GALINUCCI GARCIA – o bebê prematuro tem uma chance maior de desenvolver problemas respiratórios, que podem ou não durar até a vida adulta, dependendo do tipo e do grau de manifestação. O risco de diabetes e hipertensão também é maior.

Além disso, pode haver dificuldade no aprendizado, principalmente o déficit de atenção, que é bem mais frequente nos prematuros. É importante observar se há déficit de crescimento e encaminhar para o endocrinologista já a partir do terceiro ano de vida se for detectado. Nos casos mais graves, pode ocorrer cegueira, surdez e paralisia cerebral na criança.

A prematuridade é um evento de grande incidência no nosso País e, na maioria das vezes, pode ser evitado com um bom preparo do casal que pretende engravidar. Para isso, deve-se evitar o consumo álcool, tabagismo e drogas, adotando-se uma alimentação saudável e bons hábitos de vida. Já se sabe que esse cuidado pré-gestacional é importantíssimo para o desenvolvimento do feto e do bebê no pós-parto. Tudo isso, acrescido de uma boa assistência pré-natal, diminui o risco de um parto prematuro. No entanto, em alguns casos, ele pode ocorrer sem uma causa aparente.

Este conteúdo é meramente informativo e educativo, sendo destinado para o público em geral. Ele não substitui a consulta e o aconselhamento com o médico e não deve ser utilizado para autodiagnóstico ou automedicação. Se você tiver algum problema de saúde ou dúvidas a respeito, consulte um médico. Somente ele está habilitado fazer o diagnóstico, a prescrever o tratamento mais adequado para cada caso e acompanhar a evolução do quadro de saúde do paciente.

Quais as sequelas de uma criança prematura?

De fato, crianças Bebês RNMBP são clinicamente frágeis e podem sofrer de diversas complicações, entre as quais a síndrome de sofrimento respiratório, a hemorragia intraventricular (sangramentos no cérebro) e a retinopatia do prematuro (crescimento anormal dos vasos sanguíneos do olho).

Quais as principais complicações neurológicas do prematuro?

A afecção neurológica mais importante do período neonatal, que acomete principalmente o recém- nascido (RN) pré-termo com peso de nascimento menor que 1750g, é a hemorragia peri-intraventricular, a qual ocasiona graves seqüelas motoras e intelectuais.

Como a prematuridade pode afetar o desenvolvimento motor?

A prematuridade é um fator capaz de comprometer o desenvolvimento motor da criança, uma vez que torna seu sistema nervoso central e sensório-motor imaturos, e mais vulneráveis em relação aos das crianças nascidas a termo.

Toplist

Última postagem

Tag